Ensaio sobre o nada: Minimalismo como estilo de vida

Irvana Carpio é holandesa e cultiva um estilo no qual a cor predominante de suas vestimentas são brancas e as modelagens retas, dificilmente encontra-se logo em suas roupas e no máximo que vemos é o símbolo da Nike, marca da qual Irvana tem grande apreço.

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Irvana Carpio

Em seu blog, Irvana ensina como fazer peças de roupas minimalistas e até bolsas, visto que seu gosto peculiar nem sempre é encontrado em lojas de roupas comuns. O corte de cabelo e cor de Carpio acompanha no estilo mais minimal possível, liso e platinado, ele já foi um pouco lilás, o máximo de cor que ela se permitiu. Em alguns posts, ela explica aos poucos, porque ela tem essa preferência estética e de estilo de vida, visto que até a sua filha usa uma vestimenta mais limpa, sem detalhes.

Será que Irvana tem um transtorno obsessivo compulsivo? Será que Irvana escuta música ou só arranjos exatos de notas? Será que Irvana se alimenta de coisas coloridas (risos)? Será que Irvana…

Algumas perguntas são levantadas, não aceito apenas o que vejo, quero saber o motivo por trás de tanta busca pela pureza, e nesta pergunta, Irvana responde em um post recente no qual o título é: “AN ODE TO NOTHING/NOTHING IS EVERYTHING” (em português “Um ode ao nada, nada é tudo”).

O post é curto, mas é certeiro. A holandesa diz que a ausência de algo permite que ela se inspire, parafraseando ela: um sketchbook com páginas em branco, uma t-shirt sem estampa totalmente branca, uma tela sem tinta, embalagens sem rótulos, imagine todas as possibilidades que se encontram nesses itens. É então nessa falta de algo que a Irvana ama a cor branca, pois ela é a ausência de qualquer coisa.

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Algo em branco

Ou seja, se tudo já está completo e cheio, não há nada a ser adicionado. Para Irvana o “nada” e poucos recursos a fazem ser mais criativa e inovadora, e em tempos que ela não tinha dinheiro, ela foi forçada a ser esperta e solucionar questões e para ela existe a felicidade de ter tido nada ao invés de tudo.

Garance Doré, fotógrafa e ilustradora francesa, fez um post em seu blog, no qual aponta a vontade de simplificar a sua vida, desde a sua bolsa, usar uma menor e somente uma até o corte de cabelo. Garance é francesa, em geral, os franceses me parecem mais simples que os americanos, mas a própria Garance por estar no meio da moda, fala da dificuldade de se desfazer de coisas, afinal, se você está inserido nesse contexto, você precisa mais de 3 peças de roupas para poder falar de moda.

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Ilustração de Garance Doré

Nessa necessidade de simplificar a vida, que surgem dois amigos, Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus, que se depararam com a questão de que não estavam felizes com todos os bens materiais adquiridos e precisavam fazer algo a respeito: largaram o emprego e fundaram um site sobre isso. Eles dão palestras e muitas entrevistas, o foco deles é: com menos coisas, você terá mais. Mais o que? Mais tempo, mais liberdade, mais crescimento pessoal e até mais saúde. E não é que é verdade?

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Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus

Com menos coisas, você tem menos distrações, porque a distração existe para preencher o vazio, o tão temido vazio existencial. A Irvana gosta do vazio, do vazio do branco, ela fica calma com isso e se inspira, Joshua e Ryan te perguntam “como sua vida poderia ser melhor se você possuísse menos coisas”?

Em tempos caóticos de consumismo no qual se encontramos, todos esses movimentos me fazem pensar, eu mesma, tenho problemas com consumo e grande parte do meu salário vai para bens materiais desnecessários e fúteis. Admitir isso, já é o primeiro passo para uma vida melhor, o problema é que o ciclo vicioso é tão grande, que é difícil sair dele. Para isso, é necessário praticar uma meditação e aprofundar no meu ser e centralizar e canalizar minhas emoções, porque gasto muita energia em coisas bobas. Ou seja, vou simplificar minha vida colocando minha energia em coisas que realmente importam.

Uma das válvulas de escape desse consumo desenfreado é uma boa leitura, e um livro que conversa totalmente com esse post e o minimalismo é o “Reconhecimento de Padrões” (William Gibson). O livro conta a história da coolhunter Cayce Pollard, ela é muito mais do que simplesmente uma pessoa antenada, ela profetiza e percebe tendências cruciais para os negócios e por isso é procurada por corporações. Aonde entra o minimalismo? Cacey tem alergia a rótulos e a certos logos, e só se veste da mesma maneira sempre: calça jeans, t-shirts básicas e uma jaqueta de couro chamada Buzz Rickson. O livro tem suspense, drama e eu recomendo-o muito para quem se interessa por tendências comportamentais.

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Um suposto board sobre o estilo de Cayce

O minimalismo como um todo pode ser entendido como a ausência de algo e o simplificar qualquer coisa. Também pode ser um movimento contra todo esse ritmo louco no qual estamos vivendo, essa urgência danada da vida urbana e smartphones. A Box1824 traz o estudo da macrotendência “Quiet Bliss”, uma forma de minimizar o impacto de todas as interferências e poluição para os nossos ouvidos e olhos.

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Imagem de capa

O silêncio se torna necessário, ele é valorizado, pois a partir dele é possível resgatar o equilíbrio e a criatividade pessoal. Entendem? A Box1824 fala a mesma coisa que a Irvana falou: o menos = criatividade.

Vocês percebem a ironia disso tudo? Em um post anterior mostrei como eu faço pesquisa de moda, porque eu trabalho em uma empresa fast-fashion, mas a verdadeira criatividade está no nada. A partir do nada, se cria.

Afinal, não foi assim que a JK Rowling criou o mundo do Harry Potter? Em uma viagem de trem, do nada, surge um pensamento “menino bruxo não sabe que é bruxo vai para a escola de bruxos”. JK não precisou se entupir de informações, buscar livros antigos de bruxaria ou copiar um trabalho alheio, JK usou o ócio, o nada, e a criatividade veio, aflorou, como um deus interno.

E é nesse espírito que termino esse post, pois agora realmente compreendo o que significa a banal frase “less is more”.

Xx

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Sobre roos.evelyn

90's. girl. brazil. loves fashion, music & culture.
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3 respostas para Ensaio sobre o nada: Minimalismo como estilo de vida

  1. Demais isso!!! Muito bom seu artigo Evy! No entremeio…no descanso, no ócio….”mundos” são criados, fórmulas são concebidas…..pois o NADA é O TODO DE TUDO!!!!

  2. Bruna Oewel disse:

    Muito bom, Evelyn!
    Tudo isso, na verdade, me remeteu a um livro do Dalai Lama (obviamente, é um livro budista), “the four noble truths”. Uma dessas verdades é de que nada tem significado, só o significado que damos a elas. Se conseguimos “apagar” o significado que determinados bens de consumo querem mostrar através de sua propaganda, fica muito mais simples deixar todo esse excesso de informação que a moda nos joga e encontrar, de fato, aquilo que precisamos (que é muito pouco).

    Comparar minimalismo com budismo talvez seja um pouco demais também haha

  3. roos.evelyn disse:

    verdade, o budismo está totalmente atrelado a vida minimalista, um dos livros que li e te recomendo, se tu gosta do assunto, é um livro que só tem em inglês “the wisdom of insecurity” / alan watts . que também fala sobre o nada. algo muito niilista mas repleto de fundamento se bem aplicado. gostei muito da perspectiva que tu deu!

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